"Imortais mortais, mortais imortais, que vivem a sua morte e morrem a sua vida."

Heraclito, 540-480 a. C., filósofo grego, Da Natureza

terça-feira, 14 de abril de 2009

...se pudesse...




Eu queria ser um rio para poder transbordar
todas as emoções que me sufocam;
um vulcão para poder explodir
tudo o que mantenho refém dentro de mim;
as ondas do mar para deixar em terra
todo o lixo que suja a minha alma.
Queria ser livremente louca
e poder fazer de tudo aquilo
que sonho a minha realidade.
Queria um banho de cachoeira,
sentir aquela água fria e transparente
entrar na minha pele limpando cada poro,
retirando cada partícula de pó entranhada.
Queria ser Lua Cheia
E inundar de brilho cada recanto
Do meu corpo e de minha alma.
Queria...
no meio de tudo,
entre pedras e espinhos,
num mundo cheio de cercas e correntes
encontrar a minha paz.
Sou uma guerreira acorrentada
num mundo estranho à minha essência;
Se pudesse...
Subia ao penedo mais alto
E uivava a minha solidão...

domingo, 12 de abril de 2009

Lágrimas Ocultas




Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Tomo a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

(Florbela Espanca)