"Imortais mortais, mortais imortais, que vivem a sua morte e morrem a sua vida."

Heraclito, 540-480 a. C., filósofo grego, Da Natureza

terça-feira, 30 de março de 2010

LAMINAS CRAVADAS



Sei que existe um lugar na história, na minha história, responsável por esta inércia, por esta tristeza interior, aparentemente sem razão de existir…
Em algum momento, um simples acontecimento, ou um conjunto deles, travou a minha caminhada, bloqueou-me as forças, levando-me a baixar as armas e abandonar a grande luta.
Em algum instante de distracção, baixei meu escudo e permiti a entrada, em meu corpo e em minha alma, desta lamina afiada que me atingiu ferozmente, paralisando qualquer capacidade de reagir.
Devo retirar esta lamina…é imperativo que o faça… e fazer um curativo na ferida que ficar…mas…mas receio…
Temo que ao retirá-la, deixe aberto tamanho buraco… e que por ele saia todo o meu sangue, toda a minha vida…e que todo o meu ser fique seco, antes de haver tempo para o impedir.
Que fazer então?
Folheio em aflição o livro da minha história, procurando com grande ansiedade o tal lugar, o tal momento…
Talvez, se o encontrar, consiga entender a gravidade do ferimento e encontrar o curativo adequado.
(alegre esperança que me permite um leve sorriso)
Vou encontrando um… e outro…e mais uns quantos…
(sorriso morto)
Afinal, acabo de descobrir que venho carregando várias pequenas facas afiadas e nem me apercebera a sua dor…mas em cada página do livro, em cada memória, sinto as pequenas laminas rasgarem-me a carne e vejo os danos causados na alma.
Aumenta a minha angústia a cada lamina encontrada…
Que faço?
Por favor, alguém me ajude…
(rolam lágrimas retidas)
Não me sinto com coragem para retirar uma a uma…afinal, a dor de as encontrar já por si é insuportável…não tenho forças…
Quem me ajuda?
Será que alguém as pode retirar por mim?
(retêm-se novamente as lágrimas)
Não!
Não posso impor tamanha responsabilidade a alguém.
Só eu…tenho que ser eu…
Mas, também posso continuar a viver com estes ornamentos, que não são mais que marcas de uma história, da minha história.
Além do mais, mesmo que retire as laminas, mesmo que consiga sarar as feridas por elas deixadas, ficarão sempre as marcas…as cicatrizes…que me permitirão nunca esquecer os golpes que me foram oferecidos…
Lembrar-me-ei sempre, mas talvez não sinta mais as dores… talvez os meus movimentos se soltem e as minhas atitudes…talvez recupere forças e sentimentos…
(o inicio de uma certeza)
Se permiti, por distracção ou fraqueza, que as laminas me rasgassem a essência, terei de encontrar a determinação de as retirar, de estancar o sangue, de sarar as feridas.
Poderei morrer de dor… poderei morrer seca, na incapacidade de estancar o sangue…poderei morrer de infecções, se não conseguir desinfectar e tratar as feridas correctamente…
Mas, morrerei tentando tratar-me!
(a certeza)
Ou, poderei morrer em vida e para a vida, já que estas facadas me prendem tudo o que me faz viver…
A morte…essa palavra medonha…que nos soa a fim, a não retorno, a separação, a dor…
Mas, será realmente a morte a dor, ou o termino da dor?
Será a morte realmente o final absoluto, ou apenas o encerramento de um capítulo e o recomeço de um novo?
(e morre a certeza)
Será que se eu morrer com estas laminas cravadas no meu ser, morrerá também a dor insuportável que elas causam, ou será que as carregarei comigo no capítulo seguinte?
Que importa o depois?
Que importa os ses do amanhã?
É hoje… que tenho que tomar a decisão de querer viver (ou morrer, tanto faz) com o meu corpo rasgado, mas remendado e tratado, ou se prefiro viver (ou morrer, tanto faz) com o meu corpo rasgado e carregando todas as laminas que o massacraram.
(as lágrimas seriam uma ajuda)
Mais uma dura descoberta… a cobardia…
Afinal, nada mais faço que ser cobarde! Ou será medrosa?
Sou cobarde! Pois se o não fosse, enfrentaria as minhas dores, os meus medos… estaria a retirar, uma a uma, as laminas que me causam todas as dores e me prendem cada movimento de vida.
Sou cobarde! E por ser cobarde deixo-me morrer em vida...e por ser cobarde permiti aniquilar a minha missão, a minha caminhada, a minha liberdade, o meu sentimento, que foram travados em momentos da minha história e nada faço, agora, que tomei real e dolorosa consciência.
(sorriso de escárnio)
E eu, que sempre abominei a cobardia… descubro que também me fechei nela…
Sendo assim, será que abomino o meu ser?
Sinto-me cansada…
Não sei se quero continuar a folhear este livro…
Compreendo agora a cobardia… menos dolorosa…mais tranquila…
Mas, continuo a abominá-la… e ao conformismo e comodismo que a acompanham.
(sensação de falta de ar)
Esta não é a minha essência!
Esta, não é mais que uma reles e bruta construção elaborada por um arquitecto chamado passado…tijolos acamados que enclausuraram a minha essência, com a minha estúpida permissão.
É isso! Começo por aqui… preciso de ar!
Preciso soltar-me e, talvez pela primeira vez, ser eu mesma, sem regras externas que aniquilam a minha essência, sem amarras que impeçam o meu verdadeiro ser de viver.
Depois… só depois, irei retirar cada lamina cravada na minha alma.
(novo sorriso de esperança)
Quem sabe se elas próprias não vão caindo, já que estão seguras pelos tijolos, que decididamente terei que partir, com todas as forças que já não tenho, mas que terei que encontrar…
Não será fácil…terei vontade de desistir…serei tomada pela exaustão…muitas serão as pancadas que darei num mesmo tijolo até o quebrar…
Esta será a batalha mais importante que terei de travar…a batalha pela minha vida, pela minha verdade…e esta não me permitirei perder!

sábado, 27 de março de 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010

Perde-se o tempo
que se escapa por entre os braços cansados,
de quem já muito esperou...
e na pele áspera
desenham-se em sangue
as marcas dos sonhos desfeitos.




sexta-feira, 19 de março de 2010

gEntE






gente que não vê
gente que não ouve
gente que não cheira
gente que não ri
gente que não chora
gente que não tem dor
gente que não pensa
gente que não ama
gente que não sente
gEntE
que não vive com a gente

domingo, 7 de março de 2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

A Caminhada




Continuo a caminhada...
Deixando-me levar por passos firmes,
mas tão incertos...
Num perigoso percurso
em que o sonho abala a realidade
e a razão esbofeteia o sonho...

Adormecer...


Entrego nos braços da noite o meu corpo exausto.
Liberto minha alma,
na escuridão e silêncio que me envolvem.
Na companhia do Luar e das estrelas,
caminho pelos prados adormecidos...
sentindo a cada passo,
o estalar dos troncos e folhas secas
que se quebram à minha passagem.
Sigo,
em direcção a lado nenhum,
numa ânsia não sei de quê...
Procuro,
nesta caminhada,
o corpo perdido numa cama qualquer.
Sinto,
o vazio da minha própria ausência,
derramar-se sobre os meus sentidos.
A noite, está escura e fria…
e eu não consigo conter em mim
a força e o calor do meu espírito...
Vou andando,
sem rumo,
nesta solidão apetecida.
Deixo-me perder por aí,
em liberdade que me serve de companhia
Na espera que o dia me amanheça
e me leve de volta ao corpo despido,
que repousa numa cama qualquer.

quinta-feira, 4 de março de 2010




- Para onde vais?
Perguntou-lhe aquela doce voz que jamais a abandonara.

Mas, desta vez, ao contrário de tantas outras, sabia o que lhe responder:
- A caminho da loucura, meu querido amigo... a caminho da loucura...