"Imortais mortais, mortais imortais, que vivem a sua morte e morrem a sua vida."

Heraclito, 540-480 a. C., filósofo grego, Da Natureza

sábado, 17 de outubro de 2009

UMA VIDA...





Ainda mal abrira os olhos
E lá estavam os mesmos pensamentos
Aqueles terríveis sussurros
Sempre os mesmos tormentos

Repetem-se as palavras
Que rodopiam num espiral
Não se lembra de ter sonhado
Apenas desta tortura que é real

Basta!
Grita angustiado
Sente-se enlouquecer
Está cansado deste tormento
Seu único desejo é morrer

Mas, não padece de doença física
Apenas anos de fraqueza
Sem forças para a superar
Seu coração sangra tristeza
E não o consegue tratar

Olha-se ao espelho...
E abomina aquela visão
“Que treta de ser!
Que grande falhado sou!
Para quê continuar a viver
Este rumo que a vida tomou?”

Mas a vida não ruma sozinha
Quem tem o leme és tu
Se queres sair de mares revoltos
Não deixes à deriva a embarcação
Não podes deixar os remos soltos
Segue as coordenadas do teu coração.

“Sim!
Vou segurar os remos!
Com todas as forças, remar contra a maré
A forte ondulação vou passar
Em terra firme pôr o pé
E em novo chão caminhar...”

Tomou seu banho efusivamente
Como que para de tudo se limpar
Secou-se numa toalha habitual
Com a mesma escova se penteou
Vestiu a roupa usual
Com o mesmo perfume se perfumou.

Saiu de casa decidido
De que seria um novo dia
Pelas ruas de sempre caminhou
Mas hoje, com passos acelerados
Os mesmos rostos encontrou
No café de sempre sentados.

Bebeu o seu galão, com o seu bolo preferido
E saiu direcção ao seu emprego rotineiro
Não o fazia de coração
Apenas para ganhar dinheiro.

Um dia igual a tantos outros
Sem nada de novo acontecer
Sem adquirir novos conhecimentos
Apenas mais um dia viver.

Voltou a casa cansado
Deitou-se no seu sofá
Os sussurros de sempre ecoaram
Sentiu-se novamente entristecer
Terríveis pensamentos de novo o torturaram.

Afinal, o que mudaste tu?
Nada!
Tornou-se num eco constante
E ele mais desanimava
Relembrou todos os passos deste dia
E, sem dar conta já chorava
Porque afinal, nada podia.

A embarcação!
Lembrou-se de repente.
Saiu de casa sem em mais nada pensar
Durante horas caminhou
Finalmente chegou ao mar
E sem dúvidas por ele entrou...

A ondulação forte e incerta
Empurrava-o bem para o fundo
Ele não se debatia
Não queria voltar ao mundo.

Passou-lhe a tela da vida
Com boas e más recordações
Pensou em tudo o que perdera
Pelas suas más decisões.

Sentiu-se morrer de Saudades
De todos os que um dia amou
Não se consegue perdoar
Porque em troca todos magoou.

Pensou no dia do seu funeral
Quem iria chorar por ele?
Viu sofrimento nos seres amados
Dor sentida e verdadeira
Seus belos rostos transfigurados
Pela sua fraqueza derradeira.

Abriu os olhos...
Não aguentou dolorosos pensamentos
Iria mais uma vez dilacerar
Todos os corações que o acolheram
E ele nunca soube amar.

Olhou na direcção da superfície
O Sol afogava-se também
Mas, em poucas horas voltaria a nascer
Já ele, nada fazia
E sabia que ia morrer.

O fim aproxima-se...
Já não consegue, nem quer suster o ar
Segundos inundariam seus pulmões
Seu coração doente, iria por fim descansar
Era o fim das suas provações.

Perdoem-me!
Quis dizer...
Mas, a água não permitia
Bracejou...
Debateu-se...
Só queria ver mais um nascer do dia.

Chorou...
Arrependeu-se...
Mas, a terra não mais voltaria.

Na sua maior fraqueza
Tomou o leme da embarcação
Sem forças não desistiu
Pensou com o coração
E....realmente conseguiu.





Perdoem-me!
Conseguiu então dizer
Logo que sentiu no seu rosto ar
Sentiu-se desfalecer
Mas, alguém o veio ajudar.

Foram breves segundos
Que duraram verdadeira eternidade
Ali morreu um ser derrotada
Mas, juntamente com o Sol, nasce outra realidade.

Ao abrir os olhos
Pensou que tudo poderia estar igual
Mas, não a sua maneira de pensar
Os seus fantasmas e medos
Morreram no fundo do mar.

Como será amanhã?...
Isso pouco interessava...
Seguiria as coordenadas do coração
Pois descobrira que ele ainda amava

E, não mais deixaria à deriva a embarcação...



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